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29/04/2009  - O Crime do Restaurante Chinês
 
FONTE: REVISTA ÉPOCA ON LINE

Boris Fausto escreve sobre o crime perfeito. O célebre crime do restaurante chinês, que aconteceu em 1938, é transformado em livro pelo historiador paulistano



O paulistano Boris Fausto, de 78 anos, é um dos mais importantes historiadores brasileiros. Entre suas obras, destacam-se análises de grandes fatos históricos, como a Revolução de 30 e a criminalidade de São Paulo entre os anos 1880 e 1924. Seu novo livro vai por um caminho aparentemente irrelevante: um episódio do cotidiano. “Quis enveredar pela micro-história”, diz Fausto. “O método de buscar num episódio particular uma chave para a história não é novidade, mas ele se impôs ao tema da pesquisa.” Assim, em O Crime Do Restaurante Chinês – Carnaval, Futebol E Justiça Na São Paulo Dos Anos 30 (Companhia das Letras, 236 páginas, R$ 45), o historiador se defronta, como qualquer autor de ficção, com um mistério insolúvel, fatos recolhidos em autos de processo – e até uma lenda urbana.

O fato está registrado em quatro volumes do processo, depositado no arquivo do Tribunal de Justiça de São Paulo: o cozinheiro lituano Pedro Adukas chegou às 6h40 do dia 2 de março de 1938 para abrir o restaurante chinês onde trabalhava. O estabelecimento ficava na Rua Wenceslau Braz, próximo à Praça da Sé, região central. Ao levantar a grade da porta e entrar no salão de refeições, Adukas encontrou dois homens com a cabeça esfacelada, estirados de bruços entre mesas e cadeiras. O chão de azulejos retangulares estava banhado por um riacho de sangue. Eram os corpos de dois colegas, seu conterrâneo José Kulikevicius e o brasileiro Severino Lindolfo Rocha. Foi até o fundo e abriu uma porta que dava para uma edícula. Ali moravam os donos do restaurante: os chineses Ho-Fung e sua mulher, Maria Akiau. Perto de uma pia, achou Ho-Fung morto, com a cabeça estourada. Subiu as escadas, entrou no quarto do casal e deparou com Maria estendida ao pé da cama, o corpo em decúbito dorsal, estrangulada com um laço de tecido.

Saiba mais: Leia o primeiro capítulo de "O Crime Do Restaurante Chinês – Carnaval, Futebol E Justiça Na São Paulo Dos Anos 30"

A polícia descobriu um grosso cilindro usado na chacina e suspeitou de um jovem de 25 anos, vindo do interior, Arias de Oliveira, ex-funcionário do restaurante. Ele havia pulado um dos carnavais mais animados da metrópole de 1 milhão de habitantes, com o corso da Avenida São João e os bailes ao ar livre em estrado montado na Praça do Patriarca. Após a folia, dormiu no restaurante com os outros funcionários (Ho-Fung era um patrão despótico e queria a equipe sempre a postos). Arias foi preso e confessou o crime sob pressão. Mais tarde, declarou-se inocente.

Boris Fausto tinha 8 anos quando soube do episódio pelos jornais. “Eu lia as notícias para o meu avô cego”, diz. “Isso permitiu que minha leitura melhorasse, e a curiosidade aumentasse.” O que espantou o menino foi um episódio que não encontrou na imprensa, mas ouviu no boca a boca. A polícia teria encontrado no restaurante uma menina de traços orientais, coberta de sangue. Ela vagava entre os cadáveres e balbuciava: “Peto, peto”, como a incriminar Arias, que era negro. “O espectro da menina me perseguiu até que eu concluísse o livro”, afirma Fausto. Outra razão foi a virada que ocorreu em 1938. Naquele ano, além de ler jornais, ele, os dois irmãos e os pais desfilaram no Carnaval e torceram pela Seleção Brasileira de Futebol na Copa da França, em junho. No mês seguinte, sua mãe morreu. “A partir de então, minha vida mudou”, diz.

A nuvem de lembranças e fantasias levaram o historiador de volta ao processo e aos periódicos para tentar elucidar o caso. “Tudo ficou nítido.” O julgamento de Arias durou quatro anos e se tornou um caso célebre. Além de ter recebido atenção e cobertura sensacionalista da imprensa, colocou em confronto dois métodos para detecção de criminosos. De um lado, os peritos que acreditavam que a ciência apontaria o culpado. De outro, os juristas tradicionais, que observavam o exame de provas materiais e testemunhais. O racismo entrou em cena como estratégia da defesa.

Mas caiu por terra, pois a população acabou idolatrando Arias – segundo Fausto, ele lembrava Leônidas, o jogador herói na França. O caso foi encerrado, em 1942, por falta de provas, e Arias absolvido.
Confiante na condenação, a polícia havia encerrado o caso. “Eles até tentaram investigar a comunidade chinesa, de umas 200 pessoas”, diz Fausto. “A máfia chinesa poderia estar envolvida. Mas ninguém abriria a boca.” Assim agiu o garçom João Akiau, irmão de Maria, que disse pouco aos jornais. Um crime perfeito, enfim, no qual os reais culpados jamais foram encontrados... “Isso se você não acreditar que Arias se livrou por ter arranjado um bom advogado”, diz Fausto. Além de acadêmico e jurista, Boris Fausto é leitor de romances policiais. Seu livro pode ser devorado como thriller, ensaio histórico ou grande reportagem. Qualquer das três formas engancha o leitor até o final. “O historiador não deixa de ser um detetive”, diz Fausto. No caso, um detetive que chegou tarde ao local... e prefere estudar o suspense a solucionar o crime.

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