Diferente dos demais seres vivos, somos espécie animal extremamente frágil: fraca, despida de agilidade, asa, presa, peçonha, garra, ferrão e pele resistente. Todavia, e compensando tudo isso, somos dotados de razão.
Por força do livre arbítrio e da consciência moral, somos o único ser vivo impregnado de conflitos. Os outros animais têm comportamentos instintivos, ou seja, todos os membros da espécie reagem do mesmo jeito diante do mesmo estímulo. Nós não.
Ao contrário do que alguns pensam, a águia não goza de liberdade, já que é refém de seus próprios instintos. A história e a experiência indicam que o instinto tem servido melhor aos animais do que a razão ao homem. Exemplificando, os animais matam como meio de sobrevivência (defesa ou alimentação), ao passo que o ser humano o faz, na maioria das vezes, por maldade.
O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre estava certo quando escreveu que estamos condenados a sermos livres. Na jornada da vida não escapamos de duas coisas: morte e escolha. Nascemos com prazo de validade e a vida é feita de decisões. A cada momento, estamos escolhendo, decidindo, do banal ao fundamental.
Toda escolha tem conseqüência: se boa, denominamos recompensa; se má, punição. Incumbe, por conseguinte, a cada um de nós assumir a escolha tomada e as conseqüências derivadas.
Vivemos tempos terríveis. Thomas Hobbes era sábio: os seres humanos - alguns, é verdade -, agem como lobos em detrimento dos demais, desprezando a encarnação do limite (o outro) em suas ações. O desrespeito ao próximo tem sido regra na sociedade moderna. Altos índices de criminalidade, corrupção e impunidade campeiam escancaradamente no seio da sociedade humana.
Fato é que a razão humana não tem sido utilizada em busca de dias melhores. Devemos usá-la para defender a vida, a integridade física, a dignidade, o bem comum e a paz social.
As pendengas e problemas humanos não podem ser solucionados por meio de agressão, assassinato, ameaça, na base da fumaça da pólvora ou do fio da lâmina, senão por meio de diálogo, entendimento, concessão, enfim, da razão. Bem entendido, a resolução dos conflitos humanos deve ser alcançada através de palavras e não armas.
Cada humano deve escolher o tipo de sociedade em que deseja viver e legar para as futuras gerações. Uma sociedade em que o ser humano seja a medida de todas as coisas: o ser ao ter, a vida à morte, a ordem à desordem, a paz à violência etc. Os dias atuais carecem de pessoas comprometidas com o presente e, consequentemente, com o futuro, que plantam as sementes certas no solo social, por meio de escolhas racionalmente formuladas, para uma colheita profícua nos dias que hão de vir.
Somos livres e responsáveis por tudo que está à nossa volta. Logo, torna-se imperioso que cada um, valendo-se da razão, faça a sua parte, em busca de dias melhores, em que haja, no mínimo, respeito ao próximo. Assim, haveremos de desfrutar de uma sociedade justa e solidária.